Mercado Municipal

Originalmente publicado no blog do Trânsito Manaus. Leia também o texto anterior, sobre a Praça da Saudade.

2013 – Detalhe do Pavilhão Frontal. Foto: Steven Conte.

Ribeira dos Comestíveis

No alvorecer do Ciclo da Borracha, a partir do fim da ante-penúltima década do século XIX, Belém e Manaus viviam os primeiros anos de seus grandes apogeus, despontando de forma meteórica como metrópoles do Norte do Brasil, num forte contraste com a situação de abandono que assolava a região até aquele momento, refletindo a nova realidade econômica em que a borracha passou a representar mais da metade das exportações brasileiras.

Nessa época, a alimentação do manauara, composta por diversos produtos da região, como a farinha, frutas, grãos, peixes e caças trazidas do interior, era geralmente comercializada na Ribeira dos Comestíveis, um aglomerado de bancas às margens do Rio Negro.

Com a migração cada vez maior de brasileiros e estrangeiros em busca da prosperidade que o ouro branco – a borracha – trazia a estas terras, crescia também a demanda pelos produtos da Ribeira. Em 1869 o presidente da Província, João Wilkens de Matos (mandato 1868-1870), conhecido como Barão de Maruiá, transferiu a feira para a Praça da Imperatriz, um quadrilátero já desaparecido, entre as atuais Avenidas Sete de Setembro, Eduardo Ribeiro, Ruas Marechal Deodoro e Quintino Bocaiúva. O novo endereço, próximo aos Igarapés do Espírito Santo, do Aterro e da Ribeira, e à Ponte da Imperatriz, abrigou o comércio por 12 anos, até se tornar mais uma vez insuficiente.

Começo das Obras do Mercado Municipal

Obras de infra-estrutura se espalhavam pela cidade, que ganhava calçadas e ruas de pedras portuguesas e energia elétrica – a segunda do Brasil -, e o presidente provincial Sátiro de Oliveira Dias (mandato 1880-1881) determinou, em 1881, visando a melhoria da situação dos comerciantes, a desapropriação do terreno próximo ao porto, na Rua dos Barés, parte sudoeste do Bairro dos Remédios, hoje integrado ao Centro.

1883 – Inauguração do Mercado Adolpho Liboa – Vê-se que o muro de arrimo para contenção do aterro não estava pronto e um grupo de pessoas bem vestidas parecem participar de uma cerimônia. Há andaime no pórtico do pavilhão principal. Fonte: Manaus Sorriso. Foto: Autor desconhecido.

No espaço foi construído, já na gestão de Alarico José Furtado (mandato 1881-1882), um galpão de alvenaria de 91.476 metros quadrados, com colunas de ferro e frente para o rio. A empresa vencedora da licitação foi a Backus & Brisbin, a mesma responsável por construções em outras cidades do Brasil, como Belém, e do Mundo, como Nova Orleans nos EUA, e Cidade do México, com ferro fundido produzido pela empresa Francisc Norton, Engineers, Liverpool, que tem seu nome gravado nas colunas do lugar. Os termos do contrato firmados por Furtado diziam:

Mercado Público – A 7 de Fevereiro último aprovei o termo de contrato que assinaram no Tesouro Provincial Backus & Brisbin, uma proposta fora aceita pela Junta daquela repartição para a construção nesta capital de um mercado de ferro e de alvenaria de pedra e tijolo. Este edifício terá pelo menos 40m sobre 41,55m de um lado e foi arrematado pela quantia de 260 contos de réis, que será paga em 5 prestações na forma do respectivo contrato. […]” In: COSTA, Cacilda Teixeira da. O sonho e a técnica: a arquitetura de ferro no Brasil, p. 133.

Mercado de Les Halles, Paris, França

Este pavilhão principal, com grandes vãos, boa luminosidade e ventilação, era constituído de módulos interligados, fruto de inspiração no mercado de Les Halles em Paris, e podia ser encomendado de acordo com a necessidade da edificação. Assim, em 15 de Julho de 1883, o presidente provincial José Lustosa da Cunha Paranaguá (mandato 1882-1884) inaugurou o Mercado Público de Manaus, o segundo do Brasil.

1889 – Porto de Manaus – Raríssima foto com tomada da antiga Ponte da Imperatriz sobre o Igarapé do Espirito Santo que ligava a parte oriental com a ocidental da cidade em frente a Igreja da Matriz. Vê-se que há uma década do final do século XIX, Manaus já apresentava intenso movimento de navios e barcos na redondeza do cais. Fonte: Manaus Sorriso. Foto: Lyra.

O galpão, obedecendo aos modernos padrões da arquitetura de ferro do século XIX, contava com um frontão neogótico e relógio alemão em cima do lanternim (aquela abertura na parte superior do telhado) da construção, e dentro, 20 boxes construídos sobre pedras de Lioz, um calcário especial trazido de Portugal, expunham as mercadorias. Em respeito ao trabalho de seu antecessor, manteve a data e o nome de Furtado na entrada sul do pavilhão principal como se vê até hoje.

1890 – Porto de Manaus – A partir da Ponte da Imperatriz vê-se a área compreendida entre o “Igarapé da Ribeira” e o Mercado Municipal. Em primeiro plano a “beira” de desembarque, à esquerda mais a frente a entrada do “Igarapé do Aterro” e à direita o Mercado Municipal. Fonte: Manaus Sorriso. Foto: Autor desconhecido

Primeiras Ampliações

O Brasil tornara-se República, Amazonas e Pará seguiam seu forte desenvolvimento, e Manaus saltara de 52 mil para 73 mil habitantes entre 1890 e 1900. Em 1902, grandes obras de urbanização como o aterro do Igarapé do Espirito Santo e a unificação da Avenida Municipal, atual Av. Sete de Setembro já estavam concluídas, após governos dentre os quais geralmente se destaca Eduardo Ribeiro. Espaços como o mercado, apenas com um grande pavilhão central e dois pequenos pavilhões de zinco auxiliares já não estavam comportando a demanda.

1896 – Rara vista do Mercado há menos de uma década da sua construção. A construção contava com um pavilhão central e dois pavilhões laterais de ferro. Na frente que ficava para o Rio Negro o pórtico e na parte posterior para a rua dos Barés pequenas lojas já se formavam. Fonte: Manaus Sorriso. Foto: Fritz & Bartel.

1987 – Vista da antiga fachada posterior do Mercado que dá para a Rua dos Barés. A construção original não incluía a parte de alvenaria que conhecemos hoje e que acabou se transformando na frente do Mercado. Fonte: Manaus Sorriso. Foto: Arthuro Lucciani.

1897 – Como a vida era sóbria naqueles tempos…, o cavalo e as carroças faziam parte da paisagem da Cidade. O cidadão usou o poste para deixar seu cavalo. Essa é a frente do Mercado, no fim do seculo XIX. Fonte: Manaus Sorriso. Foto: Marie Wrigth.

1901 – Estrutura arquitetônica do Pavilhão Principal do mercado, inspirada no mercado “Les Halles de Paris” do arquiteto Victor Baltard. A foto mostra a construção original de ferro em estilo Art Nouveau. O movimento de pessoas se deve ao embarque e desembarque para o interior feito no “Cais do Mercado”. Vemos a Rua dos Barés, onde na época ficava a parte de trás, e a frente era voltada para o Rio Negro. Fonte: Manaus Sorriso. Foto: Álbum 1901/1902 – Coleção Jorge Herrán.

1901 – Fachada principal do Mercado com todos os prédios originais. É possível observar o frontão gótico principal, as casinhas laterais e no lanternim o relógio que veio da Alemanha. As grades da Praça Dom Pedro II ainda não tinham sido trazidas para servir de parapeito na borda do muro. Fonte: Manaus Sorriso. Foto: Álbum 1901/1902 – Coleção Jorge Herrán.

Circa 1907 – Postal da época, mostrando o novo Mercado Público.

Primeiramente, o prefeito Adolpho Lisboa (mandato 1904-1907), arrendou o prédio à empresa Manaós Markets, dando início à obra que deu ao Mercado sua bela fachada de alvenaria, em estilo eclético, com grande influência da Galleria Vittorio Emanuele II, um dos mais antigos centros comerciais da cidade de Milão, na Itália, ao passo que o fez dar as costas ao rio (seria um prenúncio do comportamento que a cidade inteira passaria a ter ao longo dos tempos?).

Galeria Vitorio Emanuelle II, Milão, Itália

A expansão, sob a supervisão do engenheiro Felinto Santoro, contou ainda com a demolição dos pavilhões auxiliares, a construção de dois novos galpões, ornados de ferro e vidros coloridos, fornecidos pela empresa Walter MacFarlane, da Escócia, com beirais abertos, encimados por arcos de ferro. Surgiam os Pavilhões da Carne (a oeste) e do Peixe (a leste). Adolfo Lisboa concluiu a obra em 1906, colocando seu nome no novo frontão e deixando que a história se encarregasse de batizar a edificação, agora em seu novo endereço, a Rua dos Barés, n° 46.

Últimas Ampliações e Marcas da História

Para complementar os pavilhões das carnes e dos peixes, uma outra especialidade regional foi contemplada com um espaço exclusivo, construído em 1908 e inaugurado em 1909: havia agora ao sul do complexo o Pavilhão das Tartarugas. Fechado com chapas de ferro, venezianas e vidro, coberta com chapas onduladas em forma de quatro águas, desdobrando-se nas entradas, as janelas foram feitas encimadas por gradis de ferro decorados por motivos florais e as paredes ornamentadas com detalhes também de ferro, possuía iluminação a querosene.

Um observador mais atento, caminhando pelas instalações do Mercado, após a reforma, pode achar que foi desatenção dos restauradores, não terem consertado diversas perfurações no pórtico da entrada sul do pavilhão principal e em várias janelas nas laterais. Pois eles se devem ao episódio de uma batalha travada nas ruas da capital amazonense, fruto de uma disputa pelo poder. A situação foi publicada no TM História: Bombardeio de 1910, com texto extraído do Blog do Rocha, de José Martins Rocha.

2013 – Pórtico de entrada sul do Pavilhão Principal, cravejado de balas. Foto: Steven Conte.

Pavilhões Amazonas e Pará e a Escadaria Esquecida

O prefeito Jorge de Morais (mandato 1911-1913), o mesmo que encomendou a construção do Chafariz das Quimeras, também foi responsável por adições ao mercado. Por sua ordem foram construídos dois pequenos pavilhões octogonais nas duas extremidades do Pavilhão das Tartarugas, servindo de cafés e botequins, homenageando com seus nomes os estados do Amazonas e do Pará.

1896 – Praça Dom Pedro II – Após a revitalização na gestão de Adolpho Lisboa, obra do paisagista francês monsieur Léon Paulard. Gradil seria retirado na gestão de Jorge de Morais e recolocado no entorno do Mercado Adolpho Lisboa. Fonte: Manaus Sorriso. Foto: Autor desconhecido.

Na mesma época o prefeito também determinou a retirada do gradil de ferro fundido que circundava a Praça D. Pedro II, em frente ao Paço Municipal, sua reinstalação no entorno do mercado, e a construção de uma escadaria em pedra de Lioz que, décadas depois, mesmo encoberta pelo concreto da história, hoje pode ser observada como curiosidade arqueológica no local.

Prosperidade Esborrachada

O crescimento espetacular que a borracha trouxe às capitais do Norte começou a escorrer pelas mãos à medida que os Ingleses, que levaram sementes da Hevea Brasiliensis para a Malásia, sua possessão na época, começaram a obter um maior sucesso e retorno de produção – a plantação de lá era planejada, enquanto a brasileira era natural -, ao passo que uma praga biológica e o pouco interesse do governo nacional (de olho apenas nos interesses das capitais do sudeste) em investir na borracha.

Manaus mergulhou em uma crise, amenizada apenas durante os anos 1940, com a tomada da Malásia pelos Japoneses e um curto aumento no interesse da borracha da Amazônia por parte dos Americanos.

Em 1934 o contrato com a Manaós Markets foi rescindido, trazendo de volta a administração do Mercado Adolpho Lisboa à administração municipal. Pouca coisa seria feita pelo Mercado pelos próximos 30 anos, mas pode-se destacar, resumidamente o que aconteceu ao seu redor.

Com a migração para Manaus ainda crescente, apesar da drástica diminuição das oportunidades, surgiu em 1920, entre a Ilha de Monte Cristo e a Praça dos Remédios a Cidade Flutuante. Retornaremos em um texto dedicado a este assunto futuramente, mas por ora basta dizer que foi uma extensa ocupação habitacional da orla de Manaus, chegando a alcançar a área do Mercadão, mas que findou com o governo militar, em 1967.

1972 – Aspecto da Orla com o Mercado Municipal na década de 70 e antes da construção da intervenção urbana Manaus Moderna. Vê-se que o mercado era ladeado por duas ruas que alcançavam o Rio Negro, por onde chegavam as verduras e outros gêneros e ali mesmo eram comercializados. Fonte: Manaus Sorriso. Foto: Autor desconhecido.

Primeira Reforma e Tombamento – Manaus Modernizando

Veio a Zona Franca de Manaus em 1970, e a população de Manaus decaplicara desde a inauguração do Mercado, alcançando a marca de 470.000 pessoas. Grandes cadeias nacionais e internacionais de supermercados e lojas começaram a se instalar na capital amazonense – o Shopping CECOMIZ viria a ser construído no fim daquela década -, mercados menores começaram a ser construídos nos novos bairros da cidade, como a Feira da Panair (no Educandos) e a Feira do Bagaço (na Compensa), mas o Mercadão seguia como referência para compra de produtos frescos e de qualidade para o preparo de pratos da típica culinária local.

2013 – Boxes do Pavilhão Principal. Foto: Mário Adolfo Filho.

O prefeito Enoque Reis (mandato 1975-1979), despendeu recursos para a primeira reforma do Mercadão em 1977. E em 1º de Julho de 1987 entrou para o rol de patrimônios históricos nacionais, sendo tombado pelo IPHAN como um dos mais significativos exemplares da arquitetura de ferro do País.

2013 – Escada de ferro fundido e tijolos de barro. Foto: Steven Conte.

No começo dos anos 80 uma grande obra de aterro da orla de Manaus, entre o fim da Rua Marquês de Santa Cruz e Rua dos Andradas, uniu a Ilha de Monte Cristo ao Centro de Manaus, fazendo surgir a Av. da Manaus Moderna. Assim surgiram posteriormente a Feira da Manaus Moderna e a Feira da Banana, importantes para dar mais espaço aos produtores que já comercializavam do lado de forma do Mercado Adolpho Lisboa por falta de espaço e acesso. A avenida, entretanto, afastou o rio do mercado que lhe dera as costas.

2013 – Vista do rio do Pavilhão Frontal. Foto: Steven Conte.

Segunda Reforma – Brilho Restaurado

Trinta anos se passaram desde a última reforma do Mercadão. Um dos maiores centros de comércio de produtos regionais de Manaus estava cada dia mais degradado, diversos vidros quebrados, metais das cercas e janelas retorcidos, vários mercadores ambulantes tomando todo o espaço das calçadas em seu entorno.

Assim, o prefeito Serafim Corrêa (mandato 2005-2009) deu início em 2006 às obras de restauração total do Mercadão. Os permissionários foram realocados em áreas no entorno da obra e os tapumes foram instalados. Entretanto, por problemas com os materiais que se pretendia utilizar no restauro o IPHAN promoveu reiterados embargos e retardaram a conclusão da obra em 7 anos.

2013 – Interior do Pavilhão das Carnes. Foto: Steven Conte.

Na gestão de Arthur Neto (mandato 2013-) os trabalhos de restauração do Mercadão foram retomados, com a promessa de conclusão para o aniversário de Manaus, em 24 de Outubro de 2013. A iniciativa da Prefeitura, por meio da Fundação Municipal de Turismo – Manaustur, com recursos oriundos da Superintendência da Zona Franca de Manaus – SUFRAMA e chancela do Programa Monumenta, do Ministério da Cultura e do Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID, finalmente deu uma nova cara ao Mercado Municipal Adolpho Lisboa.

2013 – Frontispício do Pavilhão das Carnes. Foto: Steven Conte.

Agora, a estrutura conta com um total de 182 permissionários, distribuídos em 64 boxes no Pavilhão Central, 20 no Pavilhão dos Peixes, 22 Pavilhão das Carnes, 24 no Pavilhão das Tartarugas, que por conta da proibição da venda em 1967, contará agora com produtos Hortifruti (porém mantendo o nome histórico), duas praças de alimentação com 11 boxes cada uma – conectando o Pavilhão Principal aos Pavilhões das Carnes e dos Peixes -, 19 no Pavilhão Frontal, duas bomboniéres, dois restaurantes na estrutura superior do Pavilhão Frontal com acesso por escada ou elevador, além dos Pavilhões Pará e Amazonas. A distribuição interna foi repensada, possibilitando que um pedestre possa caminhar, sem obstruções, desde a Rua dos Barés até o gradil defronte o rio. Além disso foi afixado um mural interno com detalhes e curiosidades da história dessa construção, como o Sino da Criolina, encontrado nas escavações e recuperado à sua posição original.

2013 – Arco de entrada do Pavilhão Frontal, com o Brasão do Município de Manaus. Foto: Steven Conte.

As folhas de Samambaia e Acanto no portão principal, as de Carvalho, as flores de Lis no gradil, o arco de concreto do pavilhão frontal do Mercado com rosas de Tudor da realeza britânica ao redor do brasão do Município de Manaus. As obras da Belle Époque são uma profunda mistura de influências européias e amazônicas na arquitetura das construções do período. Espera-se que assim como esse pedaço da história foi trazido de volta ao seu brilho original, outras partes da cidade, históricas ou não, recebam o mesmo cuidado, e que a população colabore na sua preservação.

Agradecimentos à Secretaria Municipal de Comunicação pelo convite à equipe do Trânsito Manaus para visitar as obras do Mercado Adolpho Lisboa.

2013 – Steven Conte, Prefeito Arthur Neto e Luiz Eduardo Leal. Foto: Márcio Noronha.

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Referências

Livros
– LEONG, Leyla Martins. Mercado Adolpho Lisboa, Manaus – 1883. In: MERCADOS de ferro do Brasil, aromas e sabores. Brasília, D.F: Instituto Terceiro Setor, 2011. p. 51-71.
– PÉRES, Roger Carpinteiro. Mercado Adolpho Lisboa: Arquitetura, História e Cultura na Amazônia.

Sites
– A Crítica – 12
Em Tempo
Fundação Joaquim Nabuco
G1
– História Murilo Benevides
– História Oral
Historiador Luiz Maia
Lord Manaus
– Manaus Sorriso
Portal Amazônia
– Wikipedia – Ciclo da Borracha
– Wikipedia – Lista de Governadores do Amazonas
– Wikipedia – Lista dos Prefeitos de Manaus
– Wikipedia – Manaus
– Wikipedia – Mercado Municipal Adolpho Lisboa

Saudade

Originalmente publicado no blog do Trânsito Manaus no Portal D24AM. Leia também o texto anterior, sobre o Chafariz das Quimeras.

Poucos lugares de Manaus guardam em seu nome um significado tão profundo e condizente com os diversos contextos pelos quais passou através dos tempos quanto a Praça da Saudade. Cada geração que visitou aquele passeio público, ao longo de seu quase um século e meio de existência, presenciou um lugar totalmente diferente, levando qualquer um a pensamentos nostálgicos de histórias outrora vividas ali.

O largo estendia-se desde o quadrante das atuais rua Simón Bolivar, avenidas Epaminondas e Ramos Ferreira, até o extremo norte da Av. Eduardo Ribeiro (antiga Av. do Palácio), onde hoje se encontra o Instituto de Educação do Amazonas – IEA, unindo-se ao espaço da atual Praça Antônio Bittencourt – também conhecida como Praça do Congresso – com a forma semelhante a um L invertido.

Imagem aérea do Largo de São Sebastião até a Praça da Saudade, no fim da década de 1890

Com o início da construção de casas e palacetes em seu entorno, transformando o espaço em um quadrilátero, ainda sem arborização, passou a ser encerrado pela atual Av. Ferreira Pena. O responsável pela delimitação da área, que já era frequentada pela população desde 1858, foi o governador Francisco José Furtado (mandato 1857-1860), que também ordenou a construção de uma cerca no entorno do cemitério em 1859. Em 1865 foi aprovada na Câmara Municipal a proposta de urbanização e arborização do largo, com o objetivo de transformá-lo em um horto, o que não logrou êxito.

O espaço constava nos registros oficiais como Largo 5 de Setembro, em referência à data de elevação do Amazonas à categoria de província. Entretanto, em Julho de 1867, por sugestão do vereador Antônio Davi Vasconcelos Canavarro foi oficializado o nome, com base no costume já consolidado pela população que referia-se ao lugar há vários anos como Largo da Saudade, por estar situado defronte ao antigo Cemitério de São José, que jazia situado no bairro de mesmo nome, hoje em dia integrado ao Centro. Mais tarde, em 1897, passou a receber a denominação oficial de praça.

Praça da Saudade nos anos 1900

Em 1º de Agosto de 1899, com o início das operações da Manaus Railway Company na cidade – que fora a segunda do Brasil a iniciar a instalação de bondes elétricos e a terceira a pô-los em operação –, a Praça da Saudade recebeu um itinerário dedicado com seu nome, que realizava 53 viagens diárias. Nos dias atuais, um dos veículos desta linha foi restaurado e passou a ser exibido no estacionamento do Teatro da Chaminé, sendo posteriormente transferido para o Largo de São Sebastião.

*****

Às 4 da tarde de 13 de Fevereiro de 1915, uma sexta-feira, Ária Ramos, uma jovem de 18 anos da sociedade manauara, pegou a linha da Saudade descendo a Rua Municipal, sentido Catedral. Não parou na Praça Heliodoro Balbi, pois a ronda dos soldados lhe atrapalharia a concentração, pensou.

Subiu a Avenida do Palácio e seguiu até a praça que emprestava o nome à linha, a fim de praticar as lições de suas aulas de violino, sentada sob a sombra das árvores. Na semana seguinte dar-se-iam os festejos de carnaval e, por conta dos preparativos, sua vizinhança do Canto do Quintela andava muito barulhenta, com as mães e filhas confeccionando as fantasias que seriam usadas nos bailes.

Ária Ramos

Ária queria praticar os acordes da música “Subindo aos Céus”, que lhe fora ensinada pela professora de violino em Janeiro. A mestra havia conseguido uma oportunidade para que ela realizasse uma apresentação pública na semana seguinte e, apenas ao estar sozinha na praça, a jovem conseguia afastar a ansiedade e o nervosismo que a dominavam sempre que pensava na opinião da audiência que lhe assistiria.

De repente, Ária foi surpreendida por Othon, seu amigo de tantas brincadeiras, desde os 5 anos de idade, quando a família dele mudou para o “Quintela”. Ele era 2 anos mais velho, já havia terminado o ginásio, mas nunca ingressou em escola superior. Ganhava a vida como engraxate na Av. do Palácio, e gostava de fazer às vezes de boêmio no Café dos Terríveis nas noites de Sexta. Ele viu quando Ária subiu de bonde pela principal avenida da cidade e seguiu o veículo a pé, para ver até onde ela iria.

Ária e Othon, de tão próximos desde a infância, já haviam trocado algumas juras de amor e sonhavam em casar na Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, a quem Ária era devota. Infelizmente a família da moça tinha outros planos. Décio, um homem de 26 anos, bacharel da 5ª turma de Direito na Escola Superior Livre de Manaós, havia pedido a seo Aristharco Ramos, pai de Ária, a mão da jovem em casamento, que aceitou com um semblante de satisfação. Aristharco tinha certeza de que Décio certamente daria um futuro de felicidade e segurança a sua filha.

Othon perguntou o que sua amiga estava tocando, que respondeu com um sorriso o nome da música e que apresentaria em um baile na semana seguinte. O rapaz prometeu que iria assistir a apresentação, deu-lhe um beijo na testa, despediu-se e saiu andando em passos rápidos ao, astutamente, perceber a aproximação da carruagem de Décio, que cada dia mais considerava um rival. Othon já virava a esquina na Avenida João Coelho quando Décio estacionou ao lado da Praça da Saudade e se aproximou da jovem.

Um pouco decepcionada por não conseguir praticar sua música, Ária saudou seu prometido futuro esposo com pouco ânimo. Este irritou-se pelo desprezo com que fora tratado e falou alguns impropérios, emendando com a acusação de que imaginava que ela estava encontrando o amigo de infância, a quem chamou de rufião. Despediu-se sem sequer tocá-la e prometeu que em pouco tempo daria cabo da vida do rapaz, apontando para o Cemitério de São José, e subiu em sua carruagem, açoitando o cavalo com força e se afastando rapidamente dali.

*****

Praça da Saudade nos anos 1910

No decênio entre 1928 e 1938 o logradouro sofreu constantes mudanças de nome – o que gerou críticas por parte da população –, porém passou também por duas importantes reformas. A Lei nº 1.477, de abril de 1928, transformou a Praça da Saudade em Praça Washington Luís, com a assinatura do prefeito José Francisco de Araújo Lima (mandato 1926-1929). Em 1930, o Decreto nº 01 retirou o nome do 13º presidente para dar lugar a Praça Getúlio Vargas, homenageando o presidente de então. No ano seguinte, por força do Decreto nº 49/1931, retornou à denominação de Praça da Saudade.

O prefeito Emmanuel Morais (mandato 1931-1932) ordenou, em 1932, a construção de jardins e passeios, bem como o fechamento do Cemitério de São José. Anos mais tarde, durante reunião realizada em 3 de Setembro de 1937 na Câmara Municipal, o vereador Sérgio Rodrigues Pessoa, lamentando que a “[…] data de maior júbilo para o Amazonas […]” fora relegada ao nome de um beco ao lado da Igreja dos Remédios, apresentou Projeto de Lei que alterava novamente a denominação da Praça da Saudade para Praça 5 de Setembro. Ato contínuo, o projeto foi aprovado, tornando-se a Lei 225, de 6 de Setembro de 1937, cujo artigo único dizia:

“A atual Praça da Saudade passa a chamar-se de hoje em diante e para sempre, Praça 5 de Setembro, revogando-se as disposições em contrário.”

A modificação do traçado original e a plantação de espécies exóticas consolidando a aparência pela qual a praça ficou mais conhecida, foram conduzidas pelo prefeito Antônio Botelho Maia (mandato 1936-1941), em 1938.

Praça da Saudade nos anos 1950

A partir de 1962 deu-se início a uma reforma que alterou profundamente a aparência da praça. Primeiramente, o prefeito Josué Cláudio de Souza (mandato 1962-1964) ordenou a instalação, na lateral direita da praça, de uma larga piscina com duas curiosas estátuas de bronze. Eram as representações do Homem Primitivo – com traços de Neanderthal – e do Homem Moderno. Grande parte da vegetação foi retirada, além das pérgolas de madeira, dando lugar ao concreto.

Homem Moderno e Homem Primitivo

Em 1963 o governador Plínio Ramos Coêlho (mandato 1963-1964), nacionalino inveterado – tendo inclusive sido presidente do Leão da Vila Municipal –, resolveu “esconder” o campo do rival Atlético Rio Negro Clube da vista dos transeúntes da praça construindo, por toda a sua extensão oeste, um largo edifício onde funcionaram, em diferentes momentos, a Secretaria de Estado de Justiça – SEJUS e a Superintendência Estadual de Habitação – SUHAB.

Avião DC-3 da Cruzeiro

Entre 1977 e 1984 (quando foi vendido para uma oficina de desmonte), havia um avião DC-3 pertencente à Companhia Cruzeiro em exposição na área sul da praça, chamando a atenção de adultos e crianças que iam nas tardes de domingo tirar fotos diante daquela atração. Durante os anos 1990 por diversas vezes havia brinquedos para as crianças além de algumas feiras itinerantes.

Vista aérea da Praça da Saudade no começo dos anos 1980

A Lei Municipal nº 343/1996, assinada pelo prefeito Eduardo Braga (mandato 1994-1997), alterou pela última vez o nome da Praça 5 de Setembro, para chamá-la novamente de Praça da Saudade. Porém o espaço chegou aos anos 2000 cheio de ambulantes e com pouca manutenção. Em 2007, o prefeito Serafim Corrêa (mandato 2005-2008) deu início à reforma que objetivou revitalizar os contornos que a praça possuía na primeira metade do século XX. O início dos trabalhos contou com a participação do senador Jefferson Peres, que há muitos anos já declarava seu anseio pela retirada da secretaria daquele lugar e o retorno da antiga aparência da praça. Na ocasião do início das obras, o senador, em um gesto simbólico, deu a primeira marretada do processo de demolição do edifício construído pelo governador Plínio.

As obras foram concluídas pelo prefeito Amazonino Mendes (mandato 2009-2012), culminando na re-inauguração em 30 de Abril de 2010. A reforma marcou o retorno do caminho circular, margeado pelo gramado, pelas flores e por mudas de árvores, entrecortado por calçadas radiais que levam das extremidades até o centro, onde está erguida desde 11 de Maio de 1883, por sugestão do vereador Silvério Nery e ordem do governador José Paranaguá (mandato 1882-1884), a estátua de Tenreiro Aranha, precursor da luta pela emancipação do Amazonas da província do Grão-Pará, figurando ainda na história deste Estado como o primeiro governador (mandato 1852-1853).

Praça da Saudade após restauração de 2007

Retornaram também as pérgolas (ou caramanchões) de madeira fazendo sombra aos bancos onde casais, jovens e idosos, se sentam ao fim da tarde e dão um aspecto aconchegante de jardim à Praça da Saudade. As estátuas do Homem Primitivo e do Homem Moderno foram retiradas e não se sabe ao certo o seu paradeiro. É provável que estejam no almoxarifado da prefeitura, onde por alguns anos também foi o morada do Chafariz das Quimeras. Infelizmente o senador Peres falecera um ano antes da re-inauguração, não chegando a ver seu sonho da praça restaurada realizado.

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Notícias recentes envolvendo a Praça da Saudade

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Referências

Entrevistas
– Serafim Corrêa, ex-prefeito de Manaus, sobre a ordem de colocação das estátuas do Homem Primitivo e Homem Moderno e o seu paradeiro.

Livros
– GARCIA, Etelvina. O Amazonas em Três Momentos: Colônia Império e República. 2ª ed. Manaus: Editora Norma, 2010. 144 p.
– LIBÓRIO, Nicolau. Memórias do Esporte no Amazonas. Manaus: Editora Uirapuru, 2009. 202 p.

Sites
Baú Velho
– EvangeBlog
Manaus Ontem
– MyAviation.net
– Urutu
Wikipedia

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