Velho Continente – dias 4 e 5

Ou “Kaufen, Kaufen, Kaufen!”

Dia 4

Mais uma vez o sono me amarrou na cama e tentou me atrapalhar a tomar café da manhã. Tiramos o dia para fazer compras, e as mulheres gostaram bastante da ideia.

Começamos indo ao Gropius Passagen, pela U7 (Johannisthaler Chaussee), que segundo a placa que tinha por lá é o maior shopping de Berlim. Apesar de ter três andares e um anexo do outro lado da rua ele não me pareceu maior que o Manauara. Comprei uma caixinha de chocolate que serviu para dar energia durante a longa caminhada do dia.

Depois seguimos até a última estação da U7 (Rudow), para as mulheres comprarem alguns cosméticos e o professor comprar uma sombrinha. Voltamos um pouco pela U7 (Wutzkyallee) para ver um outro shopping menor, mas além de ser minúsculo, boa parte estava em reforma, então pegamos a U7 (sentido Rathaus-Spandau), baldeamos na Möckernbrücke para a U1 (sentido Kurfürstendamm), e saímos na Wittenbergplatz que é uma das estações mais antigas e bonitas da cidade.

Do outro lado da rua estava a KaDeWe, provavelmente a loja mais chique do mundo (não, não é, mas é quase isso). As mulheres ficaram doidas pela loja. Eu me interessei, pelo stand da Braun, mas não deu tempo ir ver os eletrônicos que tinha lá. Foi a fome, que começou a nos empurrar pra fora. Antes de sair comprei uma latinha de Berlim (que vem com chocolates dentro).

Voltamos para o Gropius Passagen, para jantar, dessa vez, num restaurante Tailandês. E então para o hotel, depois do dia que eu mais andei na minha vida (não, não foi, mas foi quase isso).

Dia 5

Mais uma vez quase perdemos a hora pro café. Na verdade eu acho que não, pois mesmo tendo saído do café do hotel quase uma hora depois do horário de encerramento, a moça ainda estava colocando comida nova nos balcões.

Tem a questão das 5 horas de diferença de fuso que nos faz ficarmos ligados até mais tarde e consequentemente acordando mais tarde.

Por conta das extensas andanças nos dois dias anteriores, ficamos descansando e conversando durante a manhã. Pelas 3pm saímos do hotel pela U7 (sentido Rathaus-Spandau), baldeamos na Hermannplatz para a U8 (sentido Wittenau), e saímos na Alexanderplatz, em direção ao Alexa, um shopping que fica bem no centro moderno da cidade, e com mais marcas boas e acessíveis (Gropius = poucas marcas – acessíveis; KaDeWe = muitas marcas – não muito acessíveis).

No Alexa comprei meu relógio novo que espero que tenha uma vida útil maior que o meu último, quebrado no primeiro post. Deixamos as mulheres no shopping e voltamos ao hotel para a buscar a Luciana, 5ª integrante do nosso grupo, que havia acabado de chegar a Berlim, mas não lembramos de deixar um recado escrito antes de sair, da dona do hotel, com quem falamos de manhã havia saído, e quando chegamos, a Luciana, sem ter recebido recado nenhum, saiu pro outro lado para procurar algo para jantar. Quando chegamos não havia ninguém.

Voltamos pro shopping andamos por mais algumas lojas. Entrei numa loja para ajudar a Ada a comprar uma camisa e no caixa consegui estabelecer algum diálogo com a vendedora. No final ela perguntou se eu falava Inglês (eu não fui suficientemente claro ao explicar que estava aqui para estudar Alemão, talvez) e… Scheiße! Eu disse que sim, mas não conseguia falar: me vinham à mente apenas palavras resultantes de uma mistura tosca de Inglês com Alemão. Arranhei algum Inglês com sotaque bizarro, terminamos as compras e saímos. Parece que a Luciana já havia me falado alguma vez que quando a gente está aprendendo Alemão e tentando praticar mais, tendo aprendido Inglês antes, os dois idiomas começam a se confundir na nossa mente. Se é verdade cientificamente comprovada eu não sei, mas aconteceu comigo. Wahre Geschichte!

Por fim, jantamos, todo mundo num restaurante natureba Tailandês, e eu num restaurante Italiano, só para poder dizer grazie na saída. E voltamos ao hotel, encontramos a Luciana e fizemos alguns planos para os próximos dias.

Willkommen Luciana!

Velho Continente – dia 3

Meus olhos piscaram às 7:30AM e curiosamente às 9:40AM logo em seguida. Aparentemente aconteceu a mesma coisa com o professor. Ter passado praticamente 3 dias ligados nos deixou realmente cansados e foi difícil levantar pra tomar café, mas por sorte o horário de serviço do café do hotel ia até mais tarde por conta do feriado.

Saímos do hotel pelas 11 da manhã e fomos conhecer o Deutsches Historisches Museum (Museu de História Alemã). U7 – Grenzallee > baldeação > U6 – Mehringdamm > U6 – Friedrichstraße. Saindo na Friedrichstraße, pegamos um bonde que levou até a Dorotheenstraße, e nos deixou mais ou menos atrás do museu. Originalmente ele dava a volta e chegava um pouco mais perto, mas o local está em obras.

Chegando na esquina com a Am Kupfergraben, vimos os imensos edifícios do Pergamon-Museum e o Neues Museum. Chegando mais próximo da esquina com a Unter den Linden, vimos o Altes Museum e o Berliner Dom.

Na entrada da primeira seção a placa: “Deutsche Geschichte von den Anfängen bis 1918” (A História Alemã do Princípio até 1918). Posteriormente na seção do andar inferior, uma placa semelhante anuncia a história de 1919 até os dias de hoje. Iniciando o passeio, altares para gênios de Centúrias e Deuses, totens sobre a orígem do povo germânico e infográficos animados sobre todas a movimentações étnicas conhecidas na Europa, norte da África e oeste da Ásia até o final do primeiro milênio E.C.

Máscaras e armaduras de guerreiros medievais, globos terrestres ainda sem as Américas, uma ilustração dividida em quatro partes representando as festividades da região em cada mês do ano, tabuleiros de jogos antigos, centenas de pinturas, moedas e bustos de reis, príncipes e princesas, guerreiros e diplomatas, um esquema de quadros sobrepostos dando ideia de profundidade datado de 1730 (Walt Disney patentearia uma tecnologia semelhante nos desenhos de seu estúdio quando produziram Branca de Neve no séc. XX), o tradicional chapéu, a espada e as esporas de Napoleão Bonaparte, as primeiras impressões das principais obras de grandes pensadores e cientistas como Kant, Mendelsohn, Adam Smith, um piano que foi usado por Mozart, os primeiros jornais a pregarem o socialismo, maquetes, lâmpadas, telefones, teares, máquinas datilográficas, primeiros aparelhos de raio-x, motores e outras invenções feitas ou aperfeiçoadas em solo alemão, propagandas, jornais e filmes socialistas, o surgimento do Partido Nacional Socialista, o projeto da Germânia (que sobrepor-se-ia no lugar de Berlim se os Russos não tivessem nos salvado de Hitler), vestígios do Holocausto, maquetes dos campos de extermínio, esculturas e retratos da dor e do sofrimento daqueles que foram perseguidos pelos Nazis, artefatos do recente progresso tecnológico e pedaços do Muro de Berlim original são algumas das coisas que consegui lembrar ou registrar em fotos.

Uma pena o museu precisar fechar mais cedo por causa do feriado, ao contrário do café da manhã do hotel.

Saímos do museu e fomos comprar nossa passagem de trem para Heidelberg, na Berlin Hauptbahnhof (Estação Central de Berlim), onde também jantamos. O atendimento do guichê do trem foi de uma brutalidade tão descomunal que até um austríaco se espantou. O mau humor da atendente, que ganhou de nós o carinhoso apelido de Frau Helga Nudeln, chegou ao ponto dela socar a mesa perguntando porque estávamos sorrindo.

Ao sair da Hauptbahnhof, levei o pessoal (aquele, que chegou ontem na cidade e acha que já conhece o mapa do metrô inteiro de cor) pela U-Bahn 55 até a última parada: o Brandenburger Tor (Portão de Brandenburgo). Finalmente pudemos chegar perto do monumento quase tricentenário que serviu de plano de fundo para alguns dos maiores acontecimentos da história europeia e mundial nos últimos séculos.

Pegamos a S-Bahn e depois a U-Bahn, seguida de algumas baldeações até chegarmos na U7, que nos trouxe de volta para o nosso hotel.

Comecei a tirar fotos das placas de todas as estações de metrô por onde passamos para futura comparação. Cada uma tem um estilo único.

Velho Continente – dia 2

Eu dormi tanto que pareceu que tinha viajado no espaço-tempo-contínuo. Dormi na costa cearense e acordei na Baía de Biscaia. As nuvens parecem mais densas e enquanto a temperatura externa média no Brasil era -40º C, aqui está em -61º C.

Meu teclado está dando problema nas teclas 4, 5, 6, 7 e 8 e comandos superiores (F3-F8). Não sei o que pode ter causado isso. Estou sem sorte com teclados (e relógios) nos últimos tempos. E nem adianta comprar outro na Alemanha, pois o Y e o Z são invertidos.

Finalmente ouvi alguém falando Holandês (co-piloto do avião) e fiquei com a impressão de ser Alemão falado por um Francês ou coisa parecida. Não entendi nada, na verdade. Quando ele repetiu em Inglês, deu pra saber que vai estar 7º C no destino.

Terceira etapa, AMS – Aeroporto de Amsterdã-Schiphol: o aeroporto também é bem grande, atravessamos quase todo até chegar na porta onde pegaremos o próximo vôo. Interessante que a língua principal é o Inglês e o Holandês é meio que secundário. Também é assim no Panamá (com o Espanhol).

No caminho, fiz minha primeira compra em Euro: um adaptador de tomada. Trouxe dois, mas nenhum funcionava na tomada que eu tinha a disposição. Em compensação o que comprei agora tem mais chances de ser compatível em todos os lugares que eu passar, Padrão União Europeia, é mais ou menos compatível com aquelas tomadas redondas que temos no Brasil.

Tinhas várias lojas com tamanquinhos de cerâmica holandesa, floriculturas, uma loja de doces com um globo de chocolate e outra com um Kinder ovo gigante. Devia mudar o nome para Erwachsen ovo.

A fiscalização aqui é chata como nos EUA. E um cara se atrasou para entrar num avião e mandaram um aviso no autofalante do aeroporto: “Senhor fulano de tal, o senhor está atrasando a partida do vôo tal. Apresente-se agora ou iremos jogar suas malas fora.”

A internet do aeroporto é limitada a 2 seções de 30 minutos. Gastei as duas antes de perceber que havia esta limitação. Aprendi que laranja em Holandês é sinaasappelsap. Exatamente.

Os problemas do meu teclado se agravaram. Descobri o motivo: descarregou. E eu não trouxe o carregador. Eu bem tinha lembrado de por o carregador na mala alguns dias antes da viagem, mas quando chegava em casa esquecia. Keine Probleme, vou continuar escrevendo usando o teclado touchscreen da forma como Steve Jobs desejava.

Quarta e última etapa, TXL – Aeroporto Berlim-Tegel: aeroporto pequeno! Descemos na pista. Pareceu o aeroporto da Ponta Pelada! De taxi fomos por uma Autobahn que corta a cidade em diagonal e vai direto do aeroporto até o distrito de Britz, onde nos hospedamos. Andar por uma Autobahn é conhecer o modelo que inspirou as interestaduais americanas.

O dia anoiteceu às 4pm e o povo lá fora já se empolgava em soltar fogos de artifício. Acontece que alguns faziam um barulho realmente alto e me faziam lembrar dos ataques Russos contra o 3º Reich em Berlim no filme A Queda (Der Untergang).

De noite saímos para conhecer a feira de Natal de Berlim e ver os fogos do ano novo. Comi um Brezel e tomei um Kakao. Depois uma coisa que parecia uma bruschetta. Caminhamos pela Postdam Platz rumo ao Brandenburger Tur (Portão de Brandenburgo) em meio a uma multidão de mistura étnica semelhante à Torre de Babel. Alemão, Francês, Italiano, Espanhol, Inglês, Russo, Polonês, Português, Húngaro, Holandês e Japonês, para citar alguns exemplos.

Descobri que os italianos são o povo mais bagunceiro da Europa, pelo menos quando estão na Alemanha, seguidos pelos ingleses. Não contive a gargalhada ao ouvir um inglês, bêbado, “reclamando” do metrô: “Damn, Germans, why are you so fucking efficient?

À meia noite, em meio a uma multidão multiétnica reunida à esquerda do Portão de Bandemburgo, choveu champanhe e alegria. Frohes neues Jahr!

Ao voltar para a estação da Postdam Plaz, pude ver (com a empolgação pelos fogos na ida não percebi) partes do Muro de Berlim, pichados, porém preservados em parte. 22 anos depois da minha mãe assistir à queda do muro comigo no colo, estava diante do que restou daquele pedaço da história. E tirei uma foto onde aparece o muro e os fogos ao fundo.

Havia muita sujeira pelo chão. Restos de fogos de artifício, garrafas e cacos de vidro, vômito, e até cascas de bala. Minha bota mostrou-se uma boa escolha. Perceberíamos no dia seguinte que menos de 6 horas depois não havia mais vestígios da bagunça pelas ruas do centro da cidade.

Velho Continente – dia 1

Postas em dia as obrigações letivas, conjugais e trabalhistas, feitas as malas e abraçados os amigos que deu tempo abraçar (entschuldigung aos que não deu), hora de começar a viagem.

Primeira etapa, MAO – Aeroporto Eduardo Gomes: fiquei com medo da situação da vista do meu pai que anda fazendo drift nas curvas da madrugada. Todos (Hans, Ada e Tatiana) me esperavam no saguão do aeroporto. Assisti Origem (Inception) durante o vôo (no iPad), dormi uma boa parte, sonhei que estava num avião vendo Origem e o tempo passava mais devagar.

Segunda etapa, GRU – Aeroporto de Guarulhos: tentei encontrar amigos de São Paulo, mas meus planos não deram certo. Mesmo assim, aproveitei para comprar uma passagem de ônibus do Aeroporto de Guarulhos para o de Conconhas.

No caminho, do que consegui ver e lembrar, passamos pela Marginal Tietê, Av. Tiradentes, Estação Tiradentes e Estação da Luz (a bonitona). Almocei no SP Burger e aproveitei pra andar um pouco. Decidi voltar às 3:30pm para evitar surpresas de engarrafamento.

Na volta pude perceber também o Largo de São Francisco e o lugar onde será o estádio do Corinthians e, dizem, a abertura da Copa do Mundo do Brasil. Tive então a certeza de que a Arena da Amazônia está com o cronograma em dia. Reparei também que havia 4 penitenciárias próximo dali. Just for the lulz.

Em certos aspectos da estrutura viária da cidade, São Paulo me lembra Atlanta, com uma pitada de Los Angeles. E o fedor da Marginal Tietê. Mas nada insuportável se você frequentar o Manauara.

Em Guarulhos novamente, eu andei pelos três andares do aeroporto (que deve ter o mesmo tamanho do de Miami) até que sentei, fui assistir Clube da Luta e descobri, tardiamente, que o arquivo estava corrompido. Nisso, o autofalante do aeroporto solicitou a presença do Sr. Eduardo Honorato no balcão da Infraero. Assisti então 1/3 de Edith (La Môme), deu sono, guardei tudo, amarrei minhas coisas nos meus braços e dormi.

Mais tarde reencontrei Hans, Ada e Tatiana e fomos fazer o check-in. Por um problema de excesso de lotação eles nos realocaram para uma seção econômica menos econômica que a econômica. Economy Confort. Assim, sim. Legal também eles admitirem que não tem confort na outra economy.

Estou escrevendo no avião enquanto sobrevôo o Ceará. O papel da bandeja de comida é ilustrado com a pintura daqueles tradicionais azulejos holandeses. Deu vontade até de guardar, mas não. É engraçado e curioso ouvir crianças falando Alemão. Ainda não ouvi ninguém falando Holandês alto o suficiente para que eu possa distinguir de Alemão.

Nós podíamos escolher entre opções de jornais portugueses, franceses, alemães e holandeses na entrada do avião. Peguei o jornal alemão por mera questão de tentar ter foco no idioma que vou estudar nas próximas semanas, mas deu vontade de pegar outros também. O papel do jornal alemão tem o mesmo cheiro do USA Today, que eu particularmente não gosto. E a diagramação é bem estranha pra mim: mais largo que alto.

Quero chegar logo em Amsterdã. Não vejo a hora. Meu relógio quebrou. Sem chance de conserto até voltar. E eu tinha decidido de última hora vir com o de pulseira de borracha em vez do de pulseira de metal pra evitar ficar gelando meu braço. Me ferrei.

Desligaram a luz dos corredores. Vou desligar aqui também pra deixar a senhorinha do lado dormir. E dormir também, porque ainda falta um oceano de distância até a próxima etapa (AMS – Aeroporto de Amsterdã-Schiphol).

Desculpem a verborragia.

Auf wiederschreiben.

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