Velho Continente – dias 24 a 26

Dando prosseguimento ao relato da minha viagem à Alemanha, no que penso ser o penúltimo post da série, aqui iniciamos nossa aventura em direção à Austria, o melhor país do mundo segundo os austríacos. Para mais posts relacionados, visite a série Velho Continente.

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Segunda-feira

Ainda no estado de Bayern (Baviera ou Bavária), na Alemanha, dava pra perceber cada vez mais, pequenas elevações na lateral da estrada. Até que atravessa-se um túnel bem na fronteira entre os dois países, que mais parece um portal para outra dimensão.

Quando você sai do outro lado é recepcionado com um pórtico dando as boas vindas ao Tirol, mas, mais do que isso, os imensos blocos de pedra cobertos de gelo dão uma ideia de quão fantástica é essa área que abrange o leste da Áustria, boa parte da Suíça e o norte da Itália.

Paramos no posto para usar o banheiro e esticar as pernas e aproveitei para comprar um Almdudler, um refrigerante tradicional austríaco, feito com ervas dos Alpes. Tem gosto de guaraná.

Dirigindo por encostas rochosas, beirando precipícios, atravessando campos outrora verdejantes, agora totalmente cobertos pela neve, chegamos a Innsbruck, uma cidade situada dentro de um vale, rodeada por grandes montanhas e cortada pelo rio Inn, da qual recebe o nome. Nos postes das ruas, faixas celebravam a realização dos Jogos Olímpicos de Inverno da Juventude.

De lá, atravessamos pela Ponte Europa (a mais alta do mundo), até pegarmos a estrada que levava à região do Stubaital, onde fica Mieders, uma pequena cidade de 1.756 habitantes ao sul de Innsbruck, 437km distante de Heidelberg. Lá fomos recepcionados na pousada da dona Maria, do seu Georg e da Monica, filha do casal. Maria era uma conhecida de longa data de nosso professor. Eles prepararam uma deliciosa macarronada para o jantar.

Terça-feira

Acordamos com -10°C lá fora. Tomamos nosso desjejum tirolês reforçado, com muitos pães, geléias, queijos, ovos, leite café e frutas e saímos para, primeiro de tudo, limpar a neve que escondeu nosso carro durante a noite.

Depois fomos até uma loja próxima alugar equipamentos de esqui, exatamente, fomos até uma estação de esqui das pequenas, onde aprendi a cair com estilo. E como caí. Eu peguei tanta queda tentando esquiar que temi pela integridade dos meus joelhos. Sorte que o professor, apesar de austríaco, aprendeu com os brasileiros a não desistir nunca e teve paciência de continuar dando boas dicas até o fim da brincadeira. O dia estava muito nublado, chovia e nevava (ver a neve nevando, finalmente o/ ), o que exigia cada mais esforço.

Saímos para fazer um passeio pelas montanhas até o fim da estrada que atravessa o Stubaital, chegando ao teleférico que leva à montanha de Mutterberg. Decidimos que iríamos subir no teleférico no dia seguinte, pois a névoa daquele momento não ia permitir ver muita coisa. Tomamos um lanche no caminho e voltamos pra casa para descansar.

De noite a dona Maria preparou um Sauerkraut pra gente e eu superei o medo que tinham me feito de que era algo horrível, azedo, sem graça. Era gostoso em cima de uma espécie de pão frito que ela também preparou, e que também serviu, com geléia por cima, de sobremesa. Uma vizinha chegou de surpresa para falar com a dona Maria, e acabou sentando à mesa e comendo conosco, algo que eu imaginara até então não ser comum naquelas terras.

Quarta-feira

Apesar dos -10°C lá fora, não nevou durante a noite e o céu (e o nosso carro) amanheceram limpos e reluzentes. Após um reforçado café tirolês, rumamos para a estação teleférica de Mutterberg, compramos nossos tickets e fomos alçados, primeiramente, a 2.900 metros acima do nível do mar, onde paramos para nos ambientar à altitude.

Depois, pegamos a segunda etapa do teleférico, e subimos até 3.300 metros acima do nível do mar, na estação final, onde o termômetro marcava -18°C. Lá havia um restaurante com vista panorâmica para a cordilheira do Tirol. Ali pude ver, há menos de 10km de distância, a Itália, tal como Moisés viu a terra prometida.

Sim, estava feliz por estar presenciando uma vista tão bonita e ao mesmo tempo triste por estar tão próximo da Itália e não ter chegado a pisar em seu solo. No restaurante pedi um Apfelstrudel com cobertura de leite condensado e um chocolate quente.

Descemos o teleférico e voltamos para a estação de esqui de Mieders, onde voltei a praticar quedas sobre esquis. E depois de 5 tentativas, finalmente consegui fazer um percurso completo sem quedas.

Voltamos para a pousada para descansar, e de noite fomos a um restaurante em Fulpmes, onde fizemos um jantar de despedida e agradecimento à família da Maria que nos recebeu tão bem por lá.

Velho Continente – dias 10 a 21

Quando chegamos a Heidelberg, logo começaram as aulas, que tomavam a manhã inteira e uma boa parte da tarde para estudos, o que ocupou todo o meu tempo e acabei reduzindo as minhas notícias ao Brasil a emails semanais para mãe e namorada com 5 fotos, alguns tweets e checkins no Foursquare e a atual foto de capa do meu Facebook. Mas para não deixar o relato da viagem inacabado vou tentar resumir os dias que faltaram em dois ou três posts.

Posts anteriores: Velho Continente.

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Todos os dias acordávamos às 6:30am, pra tomar banho, se arrumar e pegar o bonde das 7:06am. A aula começava às 8:50am, mas além da meia hora de trajeto, sempre fazíamos uma parada no meio do caminho para um Französisches Frühstück. No meio do caminho tinha uma padaria Grimminger próxima ao Bethanien Krankenhaus que virou a minha preferida. Mas durante as duas semanas de aula, experimentamos umas 4 padarias próximas à escola, uma Grimminger, três Riglers.

Na primeira turma que tivemos aula no Heidelberger Pädagogium, do nível A1.2, tínhamos colegas do Japão, Irlanda, Itália, Turquia, Quênia, Índia, Canadá, dentre outras nacionalidades que não consigo mais lembrar. A professora chamava Iveline e dava uma aula “jovem” e descontraída. A língua franca da aula e da escola em geral era o Inglês, pelo menos com o pessoal do nível iniciante. Notamos que a aula estava um pouco repetitiva em relação ao conteúdo que já tínhamos estudado no Brasil e pedimos na coordenação para avançar para o A2.1, o que aconteceu no terceiro dia. Na nova turma, agora com o professor Lou, que tinha fama de durão, nossos colegas eram da Argentina, Inglaterra, Espanha, Colômbia, Coreia do Sul, Estados Unidos, Canadá e… Brasil.

Os capítulos que estudamos durante as duas semanas foram o 5º e o 6º do livro Begenungen – Deutsch als Fremdsprache, cujos títulos eram, respectivamente, “Urlaub und Reisen” (trabalho e viagens) e “Tiere und Menschen” (animais e pessoas). O primeiro ensinava sobre getílicos, declinações, preposições, pronúncia de palavras terminadas em ER, uso de “weil” e “obwohl” e vocabulário relacionado ao título. E o segundo tratava de superlativos, comparações, um pouco de Genitiv, começou a revisar as conjugações em presente, pretérito perfeito e imperfeito, e bastante vocabulário relacionado ao título. Fizemos também algumas aulas complementares de conversação durante a tarde com uma professora Argentina que já havia morado no Brasil.

Todos os dias ao voltar da aula, almoçávamos no Dinea, um restaurante panorâmico no 5º andar da Galeria Kaufhof. Também experimentamos um restaurante chinês genérico, que tinha a comida muito boa, mas bem pimentosa, e umas lanchonetes turcas, uma no sub-solo da Galeria e outra na rua ao lado. O bom de almoçar no Dinea era poder ver a parte antiga da cidade de cima. Eu gastava em média 6 a 8 Euros por uma refeição no Dinea, com sopa, prato principal e um mousse de chocolate, ou 4 Euros nos turcos.

Talvez o hábito de comer sem beber refrigerante junto e andar bastante pra fazer as coisas (o clima e a infra-estrutura de transporte público eram ótimos), me ajudou a perder um quilo mesmo experimentando todas as comidas e doces que encontrava pela frente.

Quando voltava para o alojamento, passava a tarde lendo e fazendo tarefas e no fim do dia jantava uma barra de chocolate com água comprados na hora do almoço, ou ainda um sanduíche de Käse mit Putenwurst (queijo e peito de peru) que eu providencialmente havia comprado os ingredientes quando cheguei na cidade.

Na primeira sexta-feira em Heidelberg, saímos para conhecer a Hauptstraße, a maior rua fechada para pedestres da Alemanha, suas lojas, igrejas, lanchonetes e atrações e terminamos o passeio na Kulturbrauerai Heidelberg, onde comi o melhor Apfelstrudel da minha vida com Kakao, enquanto a Luciana comeu uma Münchner Weißwürste e tomou Weizenbier. Na volta ainda passamos pela ponte antiga, e depois paramos para comer um Dönner (geralmente uma comida turca, mas vendida) num restaurante Mexicano.

No final de semana saímos de trem para conhecer a cidade vizinha de Mannheim. A viagem dura meia hora. A cidade possui um centro comercial bem mais movimentado que o de Heidelberg que é uma cidade essencialmente estudantil. Lá, seguimos a pé até o Barockschloss Mannheim, um palácio que serviu de moradia de inverno para a família da realeza da região, cujo órgão da igreja que faz parte da construção já foi tocado por Mozart.

Durante a segunda guerra ele foi praticamente todo destruído, e desde então passou por sucessivas reformas que restauraram a aparência exterior anterior à guerra. Não pude tirar fotos da parte interna, mas do que foi preservado possuía um estilo muito bonito. O salão nobre me lembrou o do nosso querido Teatro Amazonas, só que mais claro, amplo e usando mais detalhes feitos de pedra, em vez de madeira. As demais dependências que não serviram ao museu do palácio foram transformadas em salas de aula da universidade da cidade e escritórios dos professores, para não manter uma obra imensa e inútil.

Saindo de lá almoçamos num Subway (sim), passamos pelo antigo reservatório d’água e seguimos por um caminho alternativo até o planetário, onde eu e Tatiana vimos um filme sobre a exploração espacial. Por fim, fomos ao Teknoseum, mas este já estava fechando. Na volta jantamos em um restaurante grego, onde pedi pedaços de carneiro assado, e depois pegamos o trem de volta para Heidelberg, cheio de outros estudantes que também aproveitaram para passar o fim de semana na cidade vizinha mais badalada.

No dia seguinte saí sozinho para ver o por do sol, quando tirei a atual foto de capa do Facebook. Durante a semana seguinte a rotina foi praticamente a mesma até que o professor que nos guiava voltasse da Áustria para que fossemos fazer os últimos passeios da nossa viagem.

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