Poder e Alternância

Após os resultados das últimas eleições podemos ver que no Amazonas, onde um mesmo grupo se mantém no poder há 31 anos, independentemente de quem vença no segundo turno, este chegará a 35 anos. Em São Paulo, um mesmo partido chegou ao poder há 19 anos e recebeu a procuração popular para governar por 23 anos. Enquanto isso, parece que o Maranhão finalmente vai se livrar de um domínio familiar de 48 (!) anos.

A nossa ~jovem democracia~ é um ganho valioso e inquestionável, que deve ser defendido a todo custo. Ao mesmo tempo que também não pode ser corroído pela permanência de um mesmo partido ou grupo no poder por décadas a fio.

ARVE Error: id and provider shortcodes attributes are mandatory for old shortcodes. It is recommended to switch to new shortcodes that need only url

Quando o mesmo coletivo se estabelece no poder por muito tempo, suas decisões começam a se afastar da busca pelo desenvolvimento da esfera em que governam e passam a visar apenas a sua própria manutenção e permanência indefinida no poder.

Poder este travestido por um quê de paternalismo apoiado na frágil ameaça de que a mera e saudável alternância de poder implodiria todo o Estado. Quando na verdade desestabilizaria apenas e nem tanto assim, o partido. E é só com essa parte que estão preocupados. Oh horror! Oh horror!

Gilberto Mestrinho (esquerda) e Plínio Coelho (direita), caminham pela Rua Barroso, em frente à Biblioteca Pública, para depois seguir em direção ao Palácio Rio Negro onde seria feita a transmissão do cargo de governador do Amazonas, em 1959. Foto: Acervo Coelho Raposo.

Não se engane: defender a manutenção de tudo como está, sem espaço pra mudanças, não é ser progressista – é ser reacionário e conservador. Nenhum partido é detentor perene da capacidade de liderar o progresso.

E os partidos hoje parecem ser ainda mais megalomaníacos que o Partido de 1984, pois não lhes é suficiente apenas o poder pelo poder. Fazem questão da riqueza, do luxo, da vida longa e da felicidade só para si, também.

Como Não Proceder: Tecla Insert

Eu e meu primo Israel Conte criamos, em 12 de Junho de 1999, o Vila News, um jornalzinho com informações sobre a vizinhança da vila da nossa família, onde morávamos naquela época. O jornal tinha uma tiragem semanal de umas 20 cópias e era gratuito. Tudo em nome da informação.

Entre 1999 e 2002, quando saiu de circulação, o jornal teve 24 edições normais além de uma edição extra e 3 plantões, estes, em vez de distribuídos, eram colados em uma coluna próxima à entrada da vila, para que todos que passassem por ali pudessem ler. Em 2000 meu primo se mudou para Belém e acabei ficando sozinho na produção do jornal, o que explica a quantidade de edições aquém da quantidade de semanas que existem em 3 anos.

Certo dia eu estava correndo para fechar a pauta da edição que sairia na manhã seguinte e fui surpreendido por uma maldição que acometeu meu WordPad (sim, o jornal era todo feito em WordPad): ao voltar algumas palavras no parágrafo para corrigir alguma coisa, tudo que eu havia escrito à frente começou a desaparecer.

Tecla Insert

Fui ficando tenso ao ver todo o trabalho que estava pronto simplesmente evaporar, à medida que eu ia tentando fazê-lo reaparecer, escrevendo as coisas que eu lembrava. Perdi um parágrafo, depois outro, sempre avançando e seguindo a técnica Charlize Theron, a Meredith Vickers de Prometheus, de fugir de um problema seguindo em linha reta exatamente pelo caminho onde ele vai te alcançar.

Depois de duas horas de ódio (™ 1984), finalmente encontrei minha Nemesis. A maldita tecla Insert, que ao ser desativada, pôs fim àquele pesadelo.

PS: Se alguém por um acaso nunca teve contato com o WordPad, vale dar uma olhada neste artigo da Wikipédia que mais parece ser de sua irmã bem humorada, a Desciclopédia. E se você procura saber como executar o comando Insert no Windows rodando em um Mac, basta combinar as teclas Fn (Function) + Return (Enter) ou Fn (Function) + M.

Velho Continente – dias 7 e 8

Dia 7

Saindo do hotel, fizemos o mesmo itinerário do dia 3, quando fomos aos Deutsches Historisches Museum, mas dobramos à esquerda na Museuminsel e fomos ao Pergamonmuseum (18 € inteira, 15 € Student – preços do passeio completo, existem outras subdivisões do passeio por preços menores). Na lanchonete do museu, comi um Tiramisu. Aliás, esqueci de falar que na lanchonete do Berliner Dom (no dia 6) eu comi um Apfelstrudel. 🙂

Na entrada há uma exposição provisória em 360º com a imagem da cidade grega de Pergamon (atualmente Bergama, na Turquia). Dentro do museu, logo no primeiro salão após a entrada, está o templo original da cidade dedicado a Zeus (visto na atração anterior) com sua escadaria frontal, construída originalmente no século II AEC. No fim do passeio tem um vídeo que mostra o transporte de todo aquele material de Pergamon até o museu e o trabalho restauração dos materiais e de criação do painel externo. Nas seções seguintes está o Portão do Mercado de Mileto, colunas dóricas, jônicas e outras peças vindas da Grécia.

Passando para a parte de trás, temos a frente do Portal de Ishtar, construído por ordem de Nabucodonosor II e considerado uma das sete maravilhas do mundo antigo, antes de ser substituído na lista pelo Farol de Alexandria. Há também uma réplica, em tamanho natural, do Código de Hamurabi (o original está no Louvre). Na parte de cima, tapeçaria e outras peças da cultura Islâmica, inclusive a Fachada de Mshatta, um dos registros mais antigos da arquitetura muçulmana. É uma pena que a gente estude mais sobre Oriente Médio nas aulas de Religião que nas aulas de História no sistema de ensino Adventista.

De noite fomos a um restaurante italiano que conhecemos dois dias antes, quando nos desencontramos da Luciana, o La Serra. Ali, tivemos um retrato da globalização: 4 Brasileiros dos 4 cantos do país e um Austríaco, sendo servidos por um Palestino e um Turco, em um restaurante Italiano, na Alemanha, ao som de música Boliviana. Muitas piadas com os acontecimentos da semana.

Dia 8

No último dia de passeio por Berlim, ao sairmos do hotel, meia dúzia de flocos de neve caíram sobre os nossos casacos. Eram tão poucos e não deu nem tempo tirar foto. Rapidamente derreteram. Fomos, então, andar pelo Hackescher Markt, uma galeria de lojas e cafés de mais de 100 anos. Muita coisa chique, muita coisa bonita. Mas a única coisa que deu pra trazer de lá foram as fotos.

Saindo do Hackescher Markt, descemos pela Karl-Liebknecht Straße e paramos em uma doceria em frente à Berliner Fernsehturm (Torre de Televisão de Berlim), para comer um Krapfen e tomar Kakao.

Mais à frente, chegamos ao DDR Museum (Museu da Alemanha Oriental) (5 € inteira, 4 € Student). Esse, último do nosso itinerário, é bem interativo. Eles possuem roupas e uniformes, músicas, carros, aparelhos, filmes, e também a reprodução de um apartamento e de uma cela de cadeia da Alemanha Comunista.

Na sala do apartamento tinha uma televisão mostrando a programação da televisão: 4 canais – um seriado sobre os ideais do Partido, um “talk show” sobre os feitos do Partido, um jornal (apresentado por um jornalista bem nervoso e desanimado) falando sobre o último discurso do presidente no Palácio do Povo e um que apresentava algo como um documentário sobre a atuação da polícia do Partido. O áudio da vinhetas dos canais do Partido não saem da minha cabeça até agora. Não tive tempo de descobrir em qual dos quatro aparecia a apresentadora do exercício comunitário matinal e verspertino (cof… 1984… cof…).

As propagandas do Partido mostravam sempre uma Alemanha Oriental próspera e pujante, com pessoas felizes, fortes e saudáveis, mesmo que estudos mais minuciosos posteriores à queda do Muro tenham detectado uma expectativa de vida menor dos Orientais, devido, principalmente à alimentação pobre e excesso de açúcar, carne de porco e álcool.

Outra coisa que notei era a baixa qualidade dos produtos que os Orientais eram obrigados pelo Partido a usar, dada a proibição do uso de produtos do ocidente. Eletrodomésticos frágeis, carros de baixa potência e consumo excessivo de combustível, calças (utilizadas no lugar dos jeans) feitas com um material que parece a corina de revestimento de banco de ônibus.

Notei também que parece não haver certos tabus quanto à sexualidade por aqui, como há no Brasil. Principalmente depois da peça que vimos no Komische Oper e por ver no DDR Museum que na Alemanha Oriental era tradição todo mundo andar pelado na praia, e havia algumas praias restritas àqueles que quisessem usar alguma roupa. Com a queda do Muro, os Ocidentais, menos liberais nesse sentido tinham resistência quanto à prática, e com o tempo as praias de nudistas passaram a ter a obrigatoriedade do uso de roupa de banho, enquanto as antigas praias restritas aos usuários de roupas de banho passaram a ser freqüentadas pelos nudistas.

De noite fomos novamente ao La Serra ter o nosso último jantar e nos despedirmos de Berlim, que nos acolheu tão bem nos últimos 7 dias.

1984

Trecho de 1984, livro de George Orwell.

Desde mais ou menos aquela época, a guerra fora literalmente contínua, embora, a rigor, não fosse sempre a mesma guerra. Durante vários meses, durante a meninice de Winston, houvera confusas lutas de rua na própria Londres, e de algumas ele se recordava vivamente. Mas seguir a história de todo o período, dizer quem lutava, contra quem, em determinado momento seria absolutamente impossível, já que nenhum registro escrito, nem nenhuma palavras oral, jamais faziam menção a outro alinhamento de forçar, diferente do atual. Naquele momento, por exemplo, em 1984, se é que era 1984, a Oceania estava em guerra com a Eurásia e estava em guerra com a Lestásia. Em nenhuma manifestação pública ou particular, se admitia jamais que as três potências se tivessem agrupado diferentemente.

Na verdade, como Winston se recordava muito bem, fazia apenas 4 anos que a Oceania estivera em guerra com a Lestásia, e em aliança com a Eurásia. Isso porém, não passava de um naco de conhecimento furtivo, que ele possuía porque sua memória não era satisfatoriamente controlada. Oficialmente a mudança de aliados jamais tivera lugar. A Oceania estava em guerra com a Eurásia, portanto a Oceania sempre estivera em guerra com a Eurásia. O inimigo do momento representava o mal absoluto. Daí decorrendo a possibilidade de qualquer acordo passado ou futuro com ele.

Grande Irmão

O espantoso, refletiu pela milésima vez, era que poderia mesmo ser verdade, uma vez que o partido tinha o poder de agarrar o passado e dizer que este ou aquele acontecimento nunca se verificou. O artigo dizia que a Oceania jamais havia sido aliada da Eurásia. Winston Smith sabia que a Oceania fora aliada da Eurásia. Onde, porém, existia esse conhecimento. Apenas em sua consciência, o que, em em todo caso, deveria ser logo aniquilada. E se todos os outros aceitassem a mentira imposta pelo partido? Se todos os registros dissessem a mesma coisa? Então a mentira se transformava em história, em verdade.

“Quem controla o passado, controla o futuro.” – dizia o lema do partido – “Quem controla o presente, controla o passado.”

E, no entanto, o passado, com um tanto de natureza alterável, nunca fora alterado.  O que agora era verdade, era verdade do sempre ao sempre. Era bem simples. Bastava apenas uma série infinda de vitórias sobre a memória. Controle da realidade, chamava-se. Ou, em novilíngua, duplipensar.

LeiaViolência ou castigo?, post de Ismael Benigno Neto n’O Malfazejo.

PS: E obrigado à Aline Nóbile, por ter me incentivado a ler o livro.

Categorias

Passado

  • 2016
  • 2015
  • 2014
  • 2013
  • 2012
  • 2011
  • 2010
  • 2009
  • 2008
  • 2007
Seguir

Receba atualizações do blog na sua caixa de entrada.

Basta inserir seu email