Saudade

Originalmente publicado no blog do Trânsito Manaus no Portal D24AM. Leia também o texto anterior, sobre o Chafariz das Quimeras.

Poucos lugares de Manaus guardam em seu nome um significado tão profundo e condizente com os diversos contextos pelos quais passou através dos tempos quanto a Praça da Saudade. Cada geração que visitou aquele passeio público, ao longo de seu quase um século e meio de existência, presenciou um lugar totalmente diferente, levando qualquer um a pensamentos nostálgicos de histórias outrora vividas ali.

O largo estendia-se desde o quadrante das atuais rua Simón Bolivar, avenidas Epaminondas e Ramos Ferreira, até o extremo norte da Av. Eduardo Ribeiro (antiga Av. do Palácio), onde hoje se encontra o Instituto de Educação do Amazonas – IEA, unindo-se ao espaço da atual Praça Antônio Bittencourt – também conhecida como Praça do Congresso – com a forma semelhante a um L invertido.

Imagem aérea do Largo de São Sebastião até a Praça da Saudade, no fim da década de 1890

Com o início da construção de casas e palacetes em seu entorno, transformando o espaço em um quadrilátero, ainda sem arborização, passou a ser encerrado pela atual Av. Ferreira Pena. O responsável pela delimitação da área, que já era frequentada pela população desde 1858, foi o governador Francisco José Furtado (mandato 1857-1860), que também ordenou a construção de uma cerca no entorno do cemitério em 1859. Em 1865 foi aprovada na Câmara Municipal a proposta de urbanização e arborização do largo, com o objetivo de transformá-lo em um horto, o que não logrou êxito.

O espaço constava nos registros oficiais como Largo 5 de Setembro, em referência à data de elevação do Amazonas à categoria de província. Entretanto, em Julho de 1867, por sugestão do vereador Antônio Davi Vasconcelos Canavarro foi oficializado o nome, com base no costume já consolidado pela população que referia-se ao lugar há vários anos como Largo da Saudade, por estar situado defronte ao antigo Cemitério de São José, que jazia situado no bairro de mesmo nome, hoje em dia integrado ao Centro. Mais tarde, em 1897, passou a receber a denominação oficial de praça.

Praça da Saudade nos anos 1900

Em 1º de Agosto de 1899, com o início das operações da Manaus Railway Company na cidade – que fora a segunda do Brasil a iniciar a instalação de bondes elétricos e a terceira a pô-los em operação –, a Praça da Saudade recebeu um itinerário dedicado com seu nome, que realizava 53 viagens diárias. Nos dias atuais, um dos veículos desta linha foi restaurado e passou a ser exibido no estacionamento do Teatro da Chaminé, sendo posteriormente transferido para o Largo de São Sebastião.

*****

Às 4 da tarde de 13 de Fevereiro de 1915, uma sexta-feira, Ária Ramos, uma jovem de 18 anos da sociedade manauara, pegou a linha da Saudade descendo a Rua Municipal, sentido Catedral. Não parou na Praça Heliodoro Balbi, pois a ronda dos soldados lhe atrapalharia a concentração, pensou.

Subiu a Avenida do Palácio e seguiu até a praça que emprestava o nome à linha, a fim de praticar as lições de suas aulas de violino, sentada sob a sombra das árvores. Na semana seguinte dar-se-iam os festejos de carnaval e, por conta dos preparativos, sua vizinhança do Canto do Quintela andava muito barulhenta, com as mães e filhas confeccionando as fantasias que seriam usadas nos bailes.

Ária Ramos

Ária queria praticar os acordes da música “Subindo aos Céus”, que lhe fora ensinada pela professora de violino em Janeiro. A mestra havia conseguido uma oportunidade para que ela realizasse uma apresentação pública na semana seguinte e, apenas ao estar sozinha na praça, a jovem conseguia afastar a ansiedade e o nervosismo que a dominavam sempre que pensava na opinião da audiência que lhe assistiria.

De repente, Ária foi surpreendida por Othon, seu amigo de tantas brincadeiras, desde os 5 anos de idade, quando a família dele mudou para o “Quintela”. Ele era 2 anos mais velho, já havia terminado o ginásio, mas nunca ingressou em escola superior. Ganhava a vida como engraxate na Av. do Palácio, e gostava de fazer às vezes de boêmio no Café dos Terríveis nas noites de Sexta. Ele viu quando Ária subiu de bonde pela principal avenida da cidade e seguiu o veículo a pé, para ver até onde ela iria.

Ária e Othon, de tão próximos desde a infância, já haviam trocado algumas juras de amor e sonhavam em casar na Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, a quem Ária era devota. Infelizmente a família da moça tinha outros planos. Décio, um homem de 26 anos, bacharel da 5ª turma de Direito na Escola Superior Livre de Manaós, havia pedido a seo Aristharco Ramos, pai de Ária, a mão da jovem em casamento, que aceitou com um semblante de satisfação. Aristharco tinha certeza de que Décio certamente daria um futuro de felicidade e segurança a sua filha.

Othon perguntou o que sua amiga estava tocando, que respondeu com um sorriso o nome da música e que apresentaria em um baile na semana seguinte. O rapaz prometeu que iria assistir a apresentação, deu-lhe um beijo na testa, despediu-se e saiu andando em passos rápidos ao, astutamente, perceber a aproximação da carruagem de Décio, que cada dia mais considerava um rival. Othon já virava a esquina na Avenida João Coelho quando Décio estacionou ao lado da Praça da Saudade e se aproximou da jovem.

Um pouco decepcionada por não conseguir praticar sua música, Ária saudou seu prometido futuro esposo com pouco ânimo. Este irritou-se pelo desprezo com que fora tratado e falou alguns impropérios, emendando com a acusação de que imaginava que ela estava encontrando o amigo de infância, a quem chamou de rufião. Despediu-se sem sequer tocá-la e prometeu que em pouco tempo daria cabo da vida do rapaz, apontando para o Cemitério de São José, e subiu em sua carruagem, açoitando o cavalo com força e se afastando rapidamente dali.

*****

Praça da Saudade nos anos 1910

No decênio entre 1928 e 1938 o logradouro sofreu constantes mudanças de nome – o que gerou críticas por parte da população –, porém passou também por duas importantes reformas. A Lei nº 1.477, de abril de 1928, transformou a Praça da Saudade em Praça Washington Luís, com a assinatura do prefeito José Francisco de Araújo Lima (mandato 1926-1929). Em 1930, o Decreto nº 01 retirou o nome do 13º presidente para dar lugar a Praça Getúlio Vargas, homenageando o presidente de então. No ano seguinte, por força do Decreto nº 49/1931, retornou à denominação de Praça da Saudade.

O prefeito Emmanuel Morais (mandato 1931-1932) ordenou, em 1932, a construção de jardins e passeios, bem como o fechamento do Cemitério de São José. Anos mais tarde, durante reunião realizada em 3 de Setembro de 1937 na Câmara Municipal, o vereador Sérgio Rodrigues Pessoa, lamentando que a “[…] data de maior júbilo para o Amazonas […]” fora relegada ao nome de um beco ao lado da Igreja dos Remédios, apresentou Projeto de Lei que alterava novamente a denominação da Praça da Saudade para Praça 5 de Setembro. Ato contínuo, o projeto foi aprovado, tornando-se a Lei 225, de 6 de Setembro de 1937, cujo artigo único dizia:

“A atual Praça da Saudade passa a chamar-se de hoje em diante e para sempre, Praça 5 de Setembro, revogando-se as disposições em contrário.”

A modificação do traçado original e a plantação de espécies exóticas consolidando a aparência pela qual a praça ficou mais conhecida, foram conduzidas pelo prefeito Antônio Botelho Maia (mandato 1936-1941), em 1938.

Praça da Saudade nos anos 1950

A partir de 1962 deu-se início a uma reforma que alterou profundamente a aparência da praça. Primeiramente, o prefeito Josué Cláudio de Souza (mandato 1962-1964) ordenou a instalação, na lateral direita da praça, de uma larga piscina com duas curiosas estátuas de bronze. Eram as representações do Homem Primitivo – com traços de Neanderthal – e do Homem Moderno. Grande parte da vegetação foi retirada, além das pérgolas de madeira, dando lugar ao concreto.

Homem Moderno e Homem Primitivo

Em 1963 o governador Plínio Ramos Coêlho (mandato 1963-1964), nacionalino inveterado – tendo inclusive sido presidente do Leão da Vila Municipal –, resolveu “esconder” o campo do rival Atlético Rio Negro Clube da vista dos transeúntes da praça construindo, por toda a sua extensão oeste, um largo edifício onde funcionaram, em diferentes momentos, a Secretaria de Estado de Justiça – SEJUS e a Superintendência Estadual de Habitação – SUHAB.

Avião DC-3 da Cruzeiro

Entre 1977 e 1984 (quando foi vendido para uma oficina de desmonte), havia um avião DC-3 pertencente à Companhia Cruzeiro em exposição na área sul da praça, chamando a atenção de adultos e crianças que iam nas tardes de domingo tirar fotos diante daquela atração. Durante os anos 1990 por diversas vezes havia brinquedos para as crianças além de algumas feiras itinerantes.

Vista aérea da Praça da Saudade no começo dos anos 1980

A Lei Municipal nº 343/1996, assinada pelo prefeito Eduardo Braga (mandato 1994-1997), alterou pela última vez o nome da Praça 5 de Setembro, para chamá-la novamente de Praça da Saudade. Porém o espaço chegou aos anos 2000 cheio de ambulantes e com pouca manutenção. Em 2007, o prefeito Serafim Corrêa (mandato 2005-2008) deu início à reforma que objetivou revitalizar os contornos que a praça possuía na primeira metade do século XX. O início dos trabalhos contou com a participação do senador Jefferson Peres, que há muitos anos já declarava seu anseio pela retirada da secretaria daquele lugar e o retorno da antiga aparência da praça. Na ocasião do início das obras, o senador, em um gesto simbólico, deu a primeira marretada do processo de demolição do edifício construído pelo governador Plínio.

As obras foram concluídas pelo prefeito Amazonino Mendes (mandato 2009-2012), culminando na re-inauguração em 30 de Abril de 2010. A reforma marcou o retorno do caminho circular, margeado pelo gramado, pelas flores e por mudas de árvores, entrecortado por calçadas radiais que levam das extremidades até o centro, onde está erguida desde 11 de Maio de 1883, por sugestão do vereador Silvério Nery e ordem do governador José Paranaguá (mandato 1882-1884), a estátua de Tenreiro Aranha, precursor da luta pela emancipação do Amazonas da província do Grão-Pará, figurando ainda na história deste Estado como o primeiro governador (mandato 1852-1853).

Praça da Saudade após restauração de 2007

Retornaram também as pérgolas (ou caramanchões) de madeira fazendo sombra aos bancos onde casais, jovens e idosos, se sentam ao fim da tarde e dão um aspecto aconchegante de jardim à Praça da Saudade. As estátuas do Homem Primitivo e do Homem Moderno foram retiradas e não se sabe ao certo o seu paradeiro. É provável que estejam no almoxarifado da prefeitura, onde por alguns anos também foi o morada do Chafariz das Quimeras. Infelizmente o senador Peres falecera um ano antes da re-inauguração, não chegando a ver seu sonho da praça restaurada realizado.

**********

Notícias recentes envolvendo a Praça da Saudade

– Jardinagem na Praça da Saudade precisará ser recuperada após Virada Cultural
– Lixo na Praça da Saudade se acumula e mostra falta de educação dos manauaras
– Cheia no Centro de Manaus muda itinerários dos ônibus

Referências

Entrevistas
– Serafim Corrêa, ex-prefeito de Manaus, sobre a ordem de colocação das estátuas do Homem Primitivo e Homem Moderno e o seu paradeiro.

Livros
– GARCIA, Etelvina. O Amazonas em Três Momentos: Colônia Império e República. 2ª ed. Manaus: Editora Norma, 2010. 144 p.
– LIBÓRIO, Nicolau. Memórias do Esporte no Amazonas. Manaus: Editora Uirapuru, 2009. 202 p.

Sites
Baú Velho
– EvangeBlog
Manaus Ontem
– MyAviation.net
– Urutu
Wikipedia

Country Roads

ARVE Error: id and provider shortcodes attributes are mandatory for old shortcodes. It is recommended to switch to new shortcodes that need only url

Clássica composição de John Denver interpretada, em 1972, por Olivia Newton-John, com sua suavidade e beleza características.

**********

Almost heaven, West Virginia
Blue Ridge Mountains, Shenandoah River
Life is old there, older than the trees
Younger than the mountains, blowing like a breeze

Chorus:
Country roads, take me home
To the place I belong
West Virginia, Mountain Mama
Take me home, country roads

All my memories, gathered ‘round her
Miners’ Lady, stranger to blue water
Dark and dusty, painted on the sky
Misty taste of moonshine, teardrop in my eye

Chorus

I hear her voice, in the morning hour she calls me
The radio reminds me of my home far away
And drivin’ down the road I get the feeling
That I should have been home yesterday, yesterday

Chorus x 2 (modulates)

Como Proceder: Geladeira de Corda

Em Julho de 2003 eu fui para um acampamento de verão nos EUA, bem parecido com aqueles que passam na Sessão da Tarde, mas sem tantas confusões. As cabines onde ficamos alojados tinham chão de madeira sintética, beliches e ar-condicionado. Pois é.


Visualizar Indian Creek Camp em um mapa maior

O acampamento durava de Domingo a Domingo e, durante Quinta e Sexta-Feira, fizemos uma atividade externa. Cada um poderia escolher a sua preferida, dentre umas 10 possibilidades e eu, sem querer sair da minha zona de conforto amazônida, escolhi a canoagem. A organização do acampamento era responsável por prover todo o material para o esporte, assim como os mantimentos, deixando-nos responsáveis apenas pelo que fosse necessário para acampar (desta vez sim, ao ar livre) no fim do dia. Todos levaram barracas desmontáveis e eu, uma rede.

Antes de entrarmos nas canoas, nos deram alguns Gatorades para hidratação durante o percurso, que estavam sem refrigeração. A temperatura durante o dia chegava a 40 graus, caindo para 10 durante a noite – sim, sofri um pouco com a rede – e o rio que percorremos deveria ter, mesmo durante o dia, uns 10-15 graus celsius.

Então olhei pros gatorades quentes, o rio gelado, as cordas de rede que eu havia levado e… por que não? Amarrei o meio da corda na proa da canoa e em cada ponta uma garrafa, joguei as duas pra dentro do rio e panz: fiz uma geladeira, McGyver style. Em menos de meia hora estavam prontas para o consumo.

ARVE Error: id and provider shortcodes attributes are mandatory for old shortcodes. It is recommended to switch to new shortcodes that need only url

Demonstração de uso da para coisas úteis. Dica: obstruir e sujar ruas não é uma uma delas.

**********

Palavras que foram dadas com tom de amanhecer
Levo a vida todo esse amor contigo
Se o destino quis então deixar a fruta no pé amadurecer
O tempo passa e cada dia reacende a nossa história

Levo a vida e ainda toco o barco
‘Cê sabe o jeito que ainda me acho
Deixo de lado toda incerteza e sigo o coração

Eu acredito no amor
Em busca da fé eu vou
Em busca da fé eu vou
(2x)

Quantas palavras tenho guardadas ainda pra dizer
Sei que vou abrir a porta o sol vai entrar contigo
Pois o amor é como luz da primavera faz tudo florescer
Renovando toda vida colorindo o mundo agora

Vida leva e ainda toco o barco
E um tropeço ela sai do passo
Sigo sempre a voz que vem do coração

Eu acredito no amor
Em busca da fé eu vou
Em busca da fé eu vou
(2x)

Mestre

Nesta sexta acordei com a ligação do Prof. Barros de Carvalho comunicando a morte do professor João Bosco Sá Valente, aos 60 anos, com uma parada cardíaca decorrente de complicações pulmonares.

Bosco, que liderou as principais frentes de combate contra o crime organizado no Amazonas, me deu aulas de Processo Penal no terceiro ano de Direito. A admiração dos seus colegas de docência e do parquet, além de seus alunos, externadas durante o dia atestam a competência de sua atuação.

Professor João Bosco Sá Valente

A notícia da morte do professor Bosco me causou certa apreensão, como quando soube do falecimento da professora Terezinha, que me deu aulas no primeiro bimestre da Alfabetização.

É que vejo a morte dos nossos ídolos e mestres simbolizando o momento de transição em que a geração deles começa a dar lugar à nossa e, consequentemente, toda a responsabilidade do andamento da sociedade passa a repousar em nossos ombros.

E não sei se já estou pronto.

Curioso

O pastor sai de seu Ford Fusion e adentra na igreja para fazer seu sermão criticando o amor ao dinheiro.

O padre acerta, durante um banquete com os bispos, os próximos passos da campanha de ajuda aos famintos.

A feminista mostra os peitos na televisão, uma semana depois de criticar a superexposição do corpo feminino na mídia.

O ativista ambiental acha que salva o mundo usando ecobags, mas só viaja de avião e banho, só com chuveiro elétrico.

O advogado twitta das Bahamas sobre o quanto leva uma vida sofrida.

O socialista marxista leninista stalinista troskista castrista chavista sonha em ser líder do sindicato para receber um pouco mais, trabalhando um pouco menos.

Nada disso necessariamente é errado. É apenas curioso.

São Paulo, 1943

Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos precisavam de matéria-prima para suprir suas necessidades beligerantes. O Brasil buscava prestígio diante dos EUA, já consolidados como a maior potência do mundo.

Neste contexto de necessidade mútua é produzido um documentário pelo departamento americano que coordenava negócios inter-americanos, para estimular relações amistosas com países da America do Sul, capitaneados por São Paulo, a cidade latino-americana que mais crescia naquela época.

ARVE Error: id and provider shortcodes attributes are mandatory for old shortcodes. It is recommended to switch to new shortcodes that need only url

Interessante observar na parte do vídeo que trata das indústrias, que a borracha da Amazônia era uma das molas-mestras daquela engrenagem industrial.

Categorias

Passado

  • 2016
  • 2015
  • 2014
  • 2013
  • 2012
  • 2011
  • 2010
  • 2009
  • 2008
  • 2007
Seguir

Receba atualizações do blog na sua caixa de entrada.

Basta inserir seu email