Prática

Por Adrienne Nascimento.

Lembro de quando comecei o curso de Inglês. Eu estudava em casa, treinava minha pronúncia, fazia exercícios de gramática e, modéstia à parte, eu me saía muito bem nisso. Na sala de aula, porém, eu não falava, não treinava minha fluência porque eu tinha vergonha de falar em público e não lutava contra isso por simplesmente achar que não precisava, que eu já sabia estruturas gramaticais suficientes para tirar boas notas e ser considerada uma boa aluna.

Passei a observar os meus colegas mais desinibidos treinando o Inglês deles e via quantos erros eles cometiam e, todas as vezes, eu tinha vontade de corrigi-los. “Esse povo não faz exercício em casa? Não sabem que não é assim que a estrutura funciona? Não percebem que para a terceira pessoa se usa o does e não o do?”

Quando os observava errando, eu sentia pena de eles se exporem daquele jeito e de todos perceberem a falha deles.

Até que um dia, uma das minhas professoras disse que a nossa prova oral seria falar sobre um lugar a que gostaríamos de ir. Eu, super segura do Inglês que eu sabia, reuni todas as informações que gostaria de expor e fui lá pra frente da sala apresentar o trabalho. E olha só: foi um desastre! Sabe por quê? Porque me vi cometendo erros inadmissíveis de gramática e de pronúncia. Percebi que as informações não vinham automáticas na minha cabeça e eu tinha que pensar muito em que palavras usar para expressar determinado pensamento… ou seja, eu não era fluente e estava cometendo os mesmos erros que via os meus colegas cometerem.

Praticando

Foi só aí que eu vi que não importava o quanto eu tinha me enchido de teorias. Se eu quisesse falar outra língua, eu tinha que treinar falando. Como tudo na vida: aprender a fazer, fazendo. Simples. Não importava o quanto eu soubesse de gramática ou o número de palavras no meu vocabulário. Se eu quisesse ter aquilo funcionando na prática, eu tinha que por pra fora o que eu sabia de teoria. E isso significava necessariamente me expor ao erro. Me senti uma idiota quando vi que meus colegas tinham percebido isso há muito mais tempo que eu, que simplesmente me acomodei apontando e enumerando os erros de cada um.

E sabe? Eu parei pra pensar. Na vida, a gente acaba fazendo a mesma coisa.

A gente se enche de conhecimentos teóricos e, conscientes do quanto sabemos, nos ocupamos apenas em apontar o erro dos outros e ficar com pena das pessoas que burramente não entendem como funcionam as coisas da vida… Queremos corrigir os erros, ensinar que não é desse jeito, mas parece que elas não entendem, nao sabem de nada. E quando chega a nossa vez de viver, de sair da teoria, nos vemos cometendo os mesmos erros ou até piores…

Enquanto não deixarmos de lado essa mania hipócrita de dar lições de moral nas pessoas, é porque ainda não paramos para refletir que nós é que precisamos aprender e não os outros. Eles estão lá errando, mas aprendendo e se importando unicamente com a vida deles. Nós, aqui com pena daqueles pobres coitados que não sabem nada, estamos acomodados apontando o erro deles, vaidosos com nosso profundo entendimento sobre a vida, mas sem metade do conhecimento que mais interessa: o prático!

Ninguém nasce sabendo. Podemos ter aprendido toda a teoria do universo. Mas na prática é outra história. Sempre.

1984

Trecho de 1984, livro de George Orwell.

Desde mais ou menos aquela época, a guerra fora literalmente contínua, embora, a rigor, não fosse sempre a mesma guerra. Durante vários meses, durante a meninice de Winston, houvera confusas lutas de rua na própria Londres, e de algumas ele se recordava vivamente. Mas seguir a história de todo o período, dizer quem lutava, contra quem, em determinado momento seria absolutamente impossível, já que nenhum registro escrito, nem nenhuma palavras oral, jamais faziam menção a outro alinhamento de forçar, diferente do atual. Naquele momento, por exemplo, em 1984, se é que era 1984, a Oceania estava em guerra com a Eurásia e estava em guerra com a Lestásia. Em nenhuma manifestação pública ou particular, se admitia jamais que as três potências se tivessem agrupado diferentemente.

Na verdade, como Winston se recordava muito bem, fazia apenas 4 anos que a Oceania estivera em guerra com a Lestásia, e em aliança com a Eurásia. Isso porém, não passava de um naco de conhecimento furtivo, que ele possuía porque sua memória não era satisfatoriamente controlada. Oficialmente a mudança de aliados jamais tivera lugar. A Oceania estava em guerra com a Eurásia, portanto a Oceania sempre estivera em guerra com a Eurásia. O inimigo do momento representava o mal absoluto. Daí decorrendo a possibilidade de qualquer acordo passado ou futuro com ele.

Grande Irmão

O espantoso, refletiu pela milésima vez, era que poderia mesmo ser verdade, uma vez que o partido tinha o poder de agarrar o passado e dizer que este ou aquele acontecimento nunca se verificou. O artigo dizia que a Oceania jamais havia sido aliada da Eurásia. Winston Smith sabia que a Oceania fora aliada da Eurásia. Onde, porém, existia esse conhecimento. Apenas em sua consciência, o que, em em todo caso, deveria ser logo aniquilada. E se todos os outros aceitassem a mentira imposta pelo partido? Se todos os registros dissessem a mesma coisa? Então a mentira se transformava em história, em verdade.

“Quem controla o passado, controla o futuro.” – dizia o lema do partido – “Quem controla o presente, controla o passado.”

E, no entanto, o passado, com um tanto de natureza alterável, nunca fora alterado.  O que agora era verdade, era verdade do sempre ao sempre. Era bem simples. Bastava apenas uma série infinda de vitórias sobre a memória. Controle da realidade, chamava-se. Ou, em novilíngua, duplipensar.

LeiaViolência ou castigo?, post de Ismael Benigno Neto n’O Malfazejo.

PS: E obrigado à Aline Nóbile, por ter me incentivado a ler o livro.

América, parte 1

Nesse mês de agosto li um livro que achei bastante interessante chamado América, escrito por um cara chamado Monteiro Lobato, ele mesmo, o monocelha, que após alucinações com sítios fantásticos escreveu diversas coisas também fantásticas, no sentido de preciosidade mesmo.

O livro, originalmente publicado na década de 30, foi relançado esse ano, e conta sobre a viagem que ele fez aos Estados Unidos, misturando a descrição do que ele via com reflexões que fazia, seja em primeira pessoa, seja usando o recurso de um personagem fictício que criou buscando apresentar uma visão europeia que contrapusesse a visão brasileira dos lugares e acontecimentos: o inglês Mister Slang.

Estátua de Netuno, deus romano do mar, das fontes e das correntes de água. Washigton, D.C.

Durante a história descrita no livro, ele visita as cidades norte americanas de Washington (capital e centro da política), Nova York (cidade em franco crescimento populacional e urbanização, onde ele passa a maior parte do tempo) e Detroit (centro industrial automobilístico). E muito do que ele escreveu naquele tempo condiz tremendamente com a realidade atual, como por exemplo a moeda brasileira, que na época também se chamava Real.

A primeira visita ocorre em Washington, onde ele caminha observando diversos monumentos e prédios da cidade. Ao chegar à Biblioteca do Congresso ele pergunta a Mister Slang, o motivo desse nome:

Admirei o monumento com todos os ímpetos da minha capacidade de admiração arquitetônica, embora a sua real grandeza não estivesse na fachada, sim no miolo. Quatro milhões de pontas!…

– E por que lhe chamam de Biblioteca do Congresso? – perguntei.

– Parece que a ideia foi não permitir escusa de ignorância dos legisladores. Com tal base de experiência humana ao alcance, caso não legislem a contento não será por falta de meios informativos. O “não sei”, o “não sabia” fica desse modo proibido. Esta imensa mole de livros, deliberadamente ereta diante da casa dos legisladores, põe-nos em bem dura situação. Talvez a malícia de Lincoln haja colaborado nisso…

Biblioteca do Congresso. Washigton, D.C.

Que ideia interessante, não? Já imaginaram uma Biblioteca da Assembleia Legislativa do Amazonas, ou uma Biblioteca da Câmara Municipal de Manaus, grandes, se possível, do mesmo tamanho das próprias câmaras, repletas de livros, com amplo acesso à população e, obviamente, aos nobres deputados e vereadores. É notável a baixa instrução de alguns dos candidatos aos cargos legislativos estadual e federal para esta eleição que se aproxima.

Não seria correto cerceá-los de concorrem a estes cargos, porém urge que a sociedade exija dos eleitos que se atualizem, aperfeiçoem e ampliem seus conhecimentos e instrução, de forma a proporcionar uma produção legislativa mais consistente, refletindo as necessidades e interesses da sociedade, e não de seus bolsos (ou de cartéis e grupos escusos).

“Um país se faz com homens e livros.” – Monteiro Lobato.

Continua…

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Para saber mais sobre a Biblioteca do Congresso, veja a série de vídeos abaixo, produzidos pelo jornalista Luis Fernando Silva Pinto para a Globo News.

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Azul

Em primeiro lugar, se você sofre de algum distúrbio que lhe acomete fanatismo em relação à preferência bovina (na verdade em relação a qualquer coisa, mas no caso desse post, em relação à preferência bovina), fique ciente, desde já, que a minha preferência é quando o boi está bem passado.

David Assayag

Dentro de instantes vai começar o Festival Folclórico de Parintins 2010. Estava dando uma olhada nas notícias sobre o festival (veja o Portal Parintins 2010, que apesar do fundo bizarro que atrapalha a leitura, até que ficou bonito) e soube que esta tarde David Assayag foi vaiado no bumbódromo durante seu ensaio, dessa vez, sob o estandarte do boi Caprichoso, depois de haver defendido o Garantido pelos últimos 15 anos.

Em Setembro de 2009, o Rodrigo Araújo falou sobre a mudança do cantor, contou algumas curiosidades e, de quebra, colocou a paródia que eu havia feito no Twitter, por ocasião do acontecimento, a ser interpretada com a melodia da toada “Vermelho“, a mais conhecida e bonita das melodias do Garantido.

AZUL

A cor do meu batuque
Tem o toque, tem o som da minha voz
Azul, azulaço, azulusco, azulante
Azulão

O velho capitalista se aliançou
Ao anil do manto de seu novo amor
O brilho do dinheiro muda o tom
E a expressão de sua cor
Azul! (2x)

(Meu coração!)
Meu coração é vermelho
Hei! Hei! Hei!
Mas dinheiro muda o coração
He Ho! He Ho!

Tudo é Caprichoso
Após o saldo azular
Tudo é Caprichoso
Após dinheiro receber

Azulou o curral
A ideologia foi pra…
Azulou a paixão
O fogo de artifício só é vermelho pra quem viu… (2x)

Continue acompanhando a cobertura do D24AM sobre o festival, observe a tag “humor” abaixo do post, e seja feliz.

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